3.5. Discriminação racial

No ano de 1965, em uma época em que a segregação racial ainda era uma política oficial em alguns países, a ONU elaborou a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. O Brasil a adotou por meio do Decreto 65.810/69. Em seu preâmbulo é afirmado que qualquer doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, em suma, não existe justificação para a discriminação racial, em teoria ou na prática.

A Convenção estabeleceu o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, com competência para examinar petições de pessoas ou grupos de pessoas sobre a violação dos direitos constantes da Convenção, desde que essa competência tenha sido reconhecida, a qualquer tempo, pelo Estado sob o qual essa pessoa ou grupo esteja jurisdicionado.

No Brasil, nossa CRFB/88 garantiu como um dos objetivos fundamentais da República a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, IV). Além disso, definiu que a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível (art. 5º, XLII).

Temos, ainda, a Lei 12.288/10, que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir igualdade de oportunidades à população negra, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Pela definição contida nessa lei, a discriminação racial ou étnico-racial é toda distinção/exclusão/restrição/preferência baseada em raça/cor/descendência/origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular/restringir o reconhecimento/gozo/exercício, em igualdade de condições, de DH e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada.

A lei prevê a implementação de programas de ação afirmativa destinados ao enfrentamento das desigualdades étnicas no tocante à educação, cultura, esporte e lazer, saúde, segurança, trabalho, moradia, meios de comunicação de massa, financiamentos públicos, acesso à terra, à Justiça, e outros. Nesse sentido, a lei estabelece que, nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio (públicos e privados) é obrigatório o estudo da história geral da África e da história da população negra no Brasil. Também assegura aos remanescentes das comunidades dos quilombos o direito à preservação de seus usos, costumes, tradições e manifestos religiosos, sob a proteção do Estado.

Aliás, já em 1988, o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) havia garantido, aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estivessem ocupando suas terras, o reconhecimento da propriedade definitiva, devendo o Estado emitir os títulos respectivos (art. 68). Tal dispositivo foi reproduzido, de forma idêntica, no art. 31 do Estatuto.

Em 2018, na ADI 3239 o STF confirmou que o art. 68 do ADCT assegura o direito dos remanescentes das comunidades dos quilombos de ver reconhecida pelo Estado a propriedade sobre as terras que histórica e tradicionalmente ocupam. Contudo, ao contrário do que ocorre com os títulos de terceiros referentes às terras tradicionalmente ocupadas pelos índios (que são considerados nulos ou extintos), se houver título de terceiro sobre terra pertencente à comunidade de quilombo, a regularização do registro exige o necessário o procedimento expropriatório.

Como cai na prova?

1 - (FGV – OAB – XXVIII Exame / 2019) Você foi procurado(a), como advogado(a), por um pequeno grupo de estudantes negros que cursa o terceiro ano do ensino médio em uma escola particular. Os estudantes relatam que se sentem violados na sua cultura, porque os programas das disciplinas pertinentes não tratam de temas ligados à História da África e da população negra no Brasil. Indagam a você, como advogado(a), se a Escola não teria a obrigação de fazê-lo. Nesse caso, com base no Estatuto da Igualdade Racial, assinale a opção que apresenta a resposta correta a ser dada aos alunos.

A) O estudo de temas ligados à história da população negra na África e no Brasil e da cultura afro-brasileira é importante no sentido ético, mas não há obrigação legal das escolas nesse sentido.

B) As escolas públicas devem promover o estudo da História da África e da história da população negra no Brasil, mas esse dever não se estende aos estabelecimentos privados de ensino que possuem autonomia na definição de seus currículos.

C) A adoção de conteúdos referentes à cultura afro-brasileira, bem como aqueles referentes à história da população negra no Brasil, depende de determinação dos Conselhos de Educação, seja o Conselho Nacional, sejam os respectivos Conselhos Estaduais.

D) As escolas de ensino fundamental e médio devem promover o estudo da História da África e da história da população negra no Brasil, bem como da cultura afro-brasileira, o que deve ocorrer no âmbito de todo o currículo escolar.

Comentários:

A alternativa correta é a “d”, pois está de acordo com o art. 11 da Lei 12.288/10: Art. 11. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, é obrigatório o estudo da história geral da África e da história da população negra no Brasil, observado o disposto na Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

Gabarito: Letra D.

 

2 - (FGV – OAB – XIV Exame / 2014) Em 2014, em pelo menos 24 Estados do Brasil, estavam cadastradas mais de 3.500 comunidades quilombolas. As comunidades quilombolas são grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas e com ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida. O constituinte brasileiro reconheceu a identidade dos quilombolas e, especificamente, seu direito fundamental à

A) expressão cultural e artística.

B) educação em escolas próprias.

C) prática religiosa e litúrgica conforme suas tradições.

D) propriedade definitiva das terras que estejam ocupando.

Comentários:

A Constituição prevê, no artigo 216, § 5º que “ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos”. Contudo, a questão pede para identificar qual é o direito que foi reconhecido aos quilombolas. O tombamento é a preservação de um patrimônio, e isso beneficia a todos.

Nesse caso, vimos acima que o ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) estabelece, em seu artigo 68, que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. A Alternativa correta, portanto, é a “d”.

Gabarito: Letra D